Na Parte 2 do artigo O Sindicato que Queremos, o secretário sindical do Pará, Daniel Veiga, discute os princípios que definem um sindicalismo representativo, unitário e autônomo. O texto aborda os desafios atuais do movimento sindical e a importância de fortalecer a unidade, o enraizamento na base e a ação coletiva da classe trabalhadora. Clique aqui se ainda não leu a parte 1.
Por Daniel Veiga
SINDICATO REPRESENTATIVO, UNITÁRIO E AUTÔNOMO, DE CLASSE, MASSA E LUTA
No Brasil, a luta sindical ainda vive grandes dificuldades: transfúgios, vacilações, rearranjos internos, influência liberal, dispersão e estreitamento em sua base. Ademais, alguns partidos de direita conseguiram controlar e aparelhar, por meio de representantes diretos, várias entidades, fenômeno novo no movimento e diferente do antigo peleguismo. A conjuntura é, portanto, bem distinta daquela existente no final dos anos 1970, quando os sindicatos unificaram amplos setores, ganharam respaldo junto às grandes massas, desafiaram o patronato, romperam com a acomodação, ultrapassaram as leis então vigentes, colocaram em cheque a tutela do Estado e enfrentaram o
A coluna vertebral do movimento sindical não reside nas ideias, doutrinas, ideologias ou crenças de qualquer tipo, muito menos nos interesses de aproveitadores e menos ainda nas tramas divisionistas de agentes empresariais infiltrados para enfraquecerem as lutas. Está, sim, na contradição entre capital e trabalho, pois nessa dimensão se estrutura, ontologicamente, a reprodução metabólica do valor e as relações sociais no modo de produção vigente. Em torno dessa objetividade surgiram e se organizaram, historicamente, as entidades sindicais, no Brasil e no mundo. Ignorar tal realidade é fechar os olhos ao fundamental e decisivo, dando margem à proliferação de especulações e conspirações.
Os sindicatos são órgãos de massa, representativos de trabalhadores que pertencem a um ramo econômico de produção ou serviço – mais precisamente, a uma categoria econômica –, em determinada base territorial, ultrapassando-se o parâmetro meramente corporativo e superando-se a fragmentação crônica da classe. Assim, há entidades que perderam razão de existir e outras que devem ser fortalecidas.
Assim posto, entendo que nosso Sindicato deve se relacionar-se com o conjunto de sua base, sem a camisa de força de qualquer bula confessional referente a definições filosóficas, religiosas, partidárias, doutrinárias, políticas, étnicas ou culturais.
Caso o nosso Sindicato deixe de agir com tal amplitude, perderia seu caráter representativo, democrático e de massas, transformando-se em uma corrente de opinião a mais.
Com a consolidação do pluralismo liberal, desenhou-se no País um quadro de pulverização sindical, com várias centrais funcionando, umas reconhecidas e outras ainda pleiteando aval do Estado, nos marcos legais.
A despeito de tamanha dispersão, a melhor possibilidade para fortalecer a luta geral dos trabalhadores reside na constituição de uma central unitária de caráter nacional, representativa, exclusivamente sindical e autônoma em face de governos ou patrões, por meio de congressos de fusão. No atual período da luta de classes e na situação em que se encontra o sindicalismo brasileiro, porém, tal princípio ainda é meramente abstrato, carecendo de concretude como palavra de ordem para ação imediata.
Mas como diz um trecho da canção “ Seguindo em Frente” – Conhecer as manhas. E as manhãs. O sabor das massas. E das maçãs – o mais importante é externar, com clareza e firmeza, o princípio da unicidade, posicionando-se contrariamente à existência de várias entidades na mesma base territorial e defendendo um sindicalismo vertebrado pela contradição trabalho versus capital, que também se apresenta politicamente. A questão chave é estar, não em determinada entidade geral, mas na luta pelos interesses imediatos e gerais dos trabalhadores, sempre pugnando por ações conjuntas e fóruns permanentes.
O principal desafio dos sindicalistas é se enraizarem na base e nos locais de trabalho, lutando por reivindicações sentidas, elevando a consciência, melhorando o nível de organização e atuando nas entidades com despojamento e dedicação.